pôr de sol fechado
só minhas mãos de sombra
ramos de maio recolhidos
nua tua cara cheia
a verde lua vara
sob as veias da grande árvore redonda
debaixo da pele
o mascarado ri
debaixo da pele colorida
um esqueleto ri sem pele
a máscara encarnada sem riso
a pele colorida mascara
o carnaval esconde o assassino
a mulher esconde a falta
ambos dançam à mentira
o vampiro bebe solitário
o demônio serve seu vinho
as ruas estão cheias de fantasmas
debaixo da lua o velho circo
nenhum palhaço amanhece vivo
- quaresma
que o sol parta
- rasgo eterno
meu frio desejo de espanto
comer da morte o pão mofado a ferro
e a boca saliva um prurido sacro-santo.
Não será nada, doce aflita
nada mais que a vida passageira enterra
enfermo poente sonha em desmedidas
esmurro a trava surda da batida
por muito menos vejo dançar no ralo
meus moles dentes da partida
profund´amarga me levanta à mesa
só reconheço seus ossos e flores
num crânio novo serviu-me demais de sua bebida
brindamos urges mil sonhos e pavores
do mar num bar soturno esgoto
ela em seu ar de amor afoito
eu em soluços eternamente tortos.
em desaviso
de pequenos túmulos verdes
fantasmas com pés trocados
suspendem a alvorada
Desconhecer tem sido meu maior ofício.
O homem caminha pro mesmo lugar:
cruza centenas de países, aprende idiomas mortos;
desperta lagos e oceanos baldios;
apreende culturas irrelevantes, outras ele mesmo aniquila;
dorme sob cruzeiros infames de antigas constelações;
abraça o vento facínora de brasões esquecidos;
circunda promessas de amor irrefutáveis sem jamais ser fiel, se quer a uma estrela;
dorme na mentira, acorda rei de grandes estações;
caminha pro mesmo lugar,
miseravelmente curvado, mendiga segundos,
oxida como a navalha junto a qualquer braço de mar,
seu arfar vivo-morto todas as veias respiram
é o embalo do destino escuro da mesma lenha.
O homem avança pra trás,
para o mesmo lugar de partida.
E tem-se a leve sensação de alcançar novas terras, novas coisas, novos homens.
Cogita universos, sem saber de nenhum por inteiro,
mal sabe de si, e inventa-se maior, pra engrandecer o caminho de volta para o mesmo lugar,
em torno do mesmo umbigo, da mesma forca sem laço, da mesma vértebra desconjuntada
anda correndo, atirando-se ao futuro, mas não há como desprender-se do hoje que o aprisiona.
Vasculha em vão a chave de uma nova porta
com mãos de quem não move uma grama de barro.
Assim continua inoperante seu trajeto
já que a cada passo, está mais próximo do mesmo lugar.
Toda iluminação dá-se através de muitos momentos de escuridão.
Fechando a boca mantém-se abertas as portas do céu.
Porque se ando cabisbaixo, ando também com o pensamento alto. Não há única forma de ser corpo móvel à Terra e alma a fincar-se no espaço. Assim tornamo-nos loucos como relógios estagnados, numa razão solitária. Assim percebo o quanto tudo não me faz sentido. Resta tomar o agora como propósito mais lúcido, já que deste, não encontro fuga adequada.
Espero mais da morte que este estúpido desejo do não-existir.
o sol cava tua sombra
finca a memória na coisa
minha filosofia te mistura: chão, sol e você
teu corpo soava manhã
de pé contra a janela
eu puro registro
e o relógio soletrava:
m
o
r
t
e
não é o homem que faz o poema
é o poema que desfaz o homem.
aos outros, deixo que pensem o que pensam.
já lhes basta de castigo, viverem exatamente o que são.
quanto ao punhal
forço que fique
e aos males
que se extraditem
nele consumados
rasgo num só brique.
há quem vá dizer
quem vá pensar em dizer
quem vá dizer sem pensar
e apenas não pensar e dizer
dizendo o que não pensa
muito menos o que diz pensar
há todos esses e tantos outros
e uns que ainda se chamam gente
e desconheço completamente
pois só reconheço dois tipos de ser:
os que sentem
e os que não sentem.
deito teu chão escuro
e tua pele me comove escarlate
esse desejo burro
que não me deixa ir
sê por mim e por ti
que não fomos
nem se quer uma gota de sangue.
toda manhã tem sua morte iluminada
deposita seu ouro
que brota luz
que esconde o pouco que tem
no muito que não teve
deposita sua voz
na caixa escura de vozes escuras
sua mancha na parede alarga
sua boina pele de arbusto
o inverno tem suas manhãs de logro
sabe ele de tudo que não convém
sobe o muro da igreja e cospe
do alto de uma centopeia míope
uma fé do tamanho de suas pernas
não abraça os filhos
porque não os tem
nem nunca teve
nenhuma mulher que o queira
ele represa as estrelas da janela
esconde o jogo maldito do arco
numa flecha de ar, aspira o fardo
não tem alpergatas nem meias
sua ira serve apenas de bucha e asco
atrás da porta o vento sobe uma folha
o outono colore despindo umas nuvens
nenhuma festa terá o seu nome
não conhecemos juntos outros países
nem outra rua senão aquela
que cabe no bolso de um jaleco puído
que só pro tempo guardou seus abraços.
devorado
esgarçado sol
que não pia mais
sua cor é sábia
ar juvenil
esconde a barba dum monstro sem dentes
e as crianças dançam estridentes suas rimas
não desobedecem, está com o machado roto
a foice do estanque
num carinho a mais
pequenas cabeças desaparecem
não é qualquer coração que enxerga o poema.
o poema é único e sempre outro e outro e outro.
e não existe em olhos de não-poetas.
sem o poeta o poema é pura gramática.
o olhar represado de estátua, o sol palrando o cume
uma nesga de noite aparvalha-se
abre-se o ventre da aurora
uma manhã nasce latindo.
¶ soam
o olhar represado da estátua, o sol palrando ao cume
uma nesga de noite refuga
ainda assim a madrugada desfaz-se
tenho dentro o vosso mal que me escava.
- Salvatore Quasimodo
você devolveu-me a morte
foi pra casa da mãe
poderia voltar viva
eu poderia estar vivo
e estaríamos todos vivos
e a televisão jantando nossas almas
o cão na rua abatendo a noite
a lua no bolso
a casa no broto da esquina
só o silêncio assobia
e sua imagem pura de fantasma laminado
seus pés de plantas escorregadios
respirando meus ossos fracos
a mão esperando a faca, o pescoço esperando o corte
estaríamos todos mortos
quiçá eles, que não sabemos
que não temos o sentido
nem o nome
estaríamos todos juntos
pra uma só esperança.
rio, 14 de agosto de 2011
Eu vivo e não mata.
Se morro não sei,
mas não estanca nem seca.
Tem fundo falso esse peito
que bicho nenhum traduz.
...e além de tudo ando
à relevância de um grilo.
Poesia brota do chão, do nada; tá em tudo.
esse teu olhar
de quase céu risonho
recebe, à tarde,
o dia em suas botas sujas de noite.
Pequena espera
Para qual caminho tanto insisto
valer de todo meu percurso?
Pois tudo é sempre só de inícios
que deles todos o mais curto.
Qualquer desprumo vão de nada
tocar meus mal regados vícios;
andando sempre à meia estrada
na luz que me apaga enquanto bicho.
Nas mãos o corpo que se afunda
nesta de ir sem ter partido;
andando como andam os defundos
marcados por seus dentes extraídos.
Tantos verões na terra rasa
enterram-se em meu peito ressequidos;
nenhum desfeito em tantas mágoas
ousou mais forte ter vivido.
Assim gasto minhas garras
co´estes animais feridos;
basta que um vento beije a casa
vem a morte sopra-lhes os ouvidos.
O mundo das ideias é o mundo dos homens.
Nele, Deus pode deixar de existir;
O mundo de Deus, é o mundo do qual não fazemos ideia.
está a ideia de Deus.
farto de chamar-se sol
chamou-se noite
amanheceu-se
deu-se em sol novamente
farto mais ainda
chamou-se lua
adormeceu-se
a manhã veio inda mais crua
chamou-se apenas: dia.
antes da tarde
tudo que sei
era só esse o nome ele que tinha.
Futuros votos
Deverás chamar-lhe mil vezes
ouvirá com ouvidos livres e atentos, apenas uma;
assim e sempre é o amor.
Deverás percorrer todos os passos já percorridos
achando bobo fazê-los novamente,
e sem perceber descobrirás sentidos novos em cada um deles;
assim e sempre é o amor.
Todos os dias tocarás o ouro, pequenas salas claras de um sol jovem,
sempre indo e vindo de lugares novos e iluminados
a aquecer-se nas mesmas mãos brancas
onde a água nunca terá o mesmo gosto;
assim e sempre é o amor.
Quando toda e qualquer canção parecer sua
mesmo que na estranha voz do vento parecer-lhe antiga
a tua voz e aquela, cantarão apenas aos altos sonhos
e vão-se juntos compondo árias novas em qualquer harmonia;
assim e sempre é o amor.
Reconhecerás apenas o outro em ti
e nele apenas tu na tua mais profunda essência
camuflada do único disfarce apropriado à todas as festas:
seus próprios olhos cheios de um no outro;
assim e sempre é o amor.
Votos não farão, terão feito antes de dizê-los
antes de escrever qualquer palavra, elas terão sido escritas sem a sombra de uma pena
antes de nascer o filho, já terá um nome santo e receberá as bênçãos sobre a testa já risonha
pois só assim serão maiores do que são então, não mais que grãos de uma praia perdida;
assim e sempre é o amor.
Já então, nenhuma perdição
nenhuma dor tocará qualquer canto de vossos corpos
a não ser a falta, a falta do outro que te abriga
assim sentirão por todo o sempre esse espaço do que foi
dentro de todos os instantes, nessa vida que se perde a cada ponto
e num bate-estaca oco passará o tempo à mastigar-lhes
sem saber como enterrá-los, dividirá-se em mil partes
sem jamais separá-los, pois mesmo a falta presente
servirá de prova suficiente para quem quiser ouvir tão somente
que ali houve e haverá sempre, espalhado por todo o mundo
um outro mundo num mundo outro,
num único peito, haverá batido dois corações;
assim e sempre é o amor.
Jardim de pixe
Como se varasse um tiro
insensível aos peitos vários
tão novos e deformados
o monstro que às gravatas cospe
como se varasse do breu no poste
qualquer um de seus milhões de mortos
em breves corações escassos vagueiam
tiros-moscas varejam na urina
e em seus refeitórios,
onde jantam a si próprios,
apagam-se as estrelas.
quem sequer dormiu
foi engolido
um grande golfo de terra
uma silenciosa tumba descendo
e nenhum cachorro latiu.
você me lembra coisas
dessas que não mensuro
coisas que permanecem
como a voz no interfone
mas não te ouço
levo de ti só o pedaço de um mar nas orelhas
e o barco virgem rabiscando a praia
no rastro, o marulho branco
tua face mal desenhada -
que não fui homem bastante para apagar.
o seixo branco que se agrupa sob o mar sem água;
o infinito acenando no fim da rua;
a lua longe, noutra cidade.
a palavra ajeita
os olhos apagam
o corpo mastiga
o pensamento engole
o poeta amarga
está quebrado o sol
não quer andar
anda sovina
quer dormir sozinho
aclarar não pensa
está convicto
que o dia já não o merece
hirsuto em suas meias furadas
não fez inverno?
Amolece a cara no silêncio
e colabora com a noite. -
a foice desce o universo.
minha casa sem paredes
sem espelhos
casa sem porta
sem teto
onde ajeito cada uma de minhas coisas
e relembro o quanto não fui ali, sequer uma abelha.
te escondes de mim
animal sem rosto
ó casebre envolto em morte
nenhuma sepultura te serve
assim escuto o eu fantasma
só tua voz acende a chama
donde quer que venha
a imensidão da palavra tida
nunca antes devorada
agora aqui, como toda criança
adormece imunda, sem pecados
esfrega teus olhos
durmo agarrado à sua cintura
âncora fria
buscando novamente o espaço escuro.
Da manhã só o veneno;
à boca o óleo dos pássaros
e o suor dos que não vivem.
Não há desejo sem delírio.
Sempre se morre sem saber por onde.
☼
A manhã deflagra sua cor branca
deflorada, virgem ainda pela boca
respira meu sono
enjaulado não antecipo o dia
sou um respiráculo sem vida
inacordo
trafego nu sobre a penugem e o osso
a carne e o ar
e é quando me cai em neve, mil pés no peito
respirar deixou de ser vital.
☼
aqui onde as pessoas surgem
onde o som dos pássaros cobre
há uma infinita prataria de olhos
comendo cada segundo
e há o que não nos cerca
mas em tudo morre
em tudo age
assim perdemos sempre,
pois já nascemos com esse buraco nas mãos.
Cresce
seu cabelo
dentro de mim:
dentro não tem espelhos.
Poesia é desconcerto, desaviso
vinho luminoso
sem casco, sem rótulo
já vem no copo
com um corpo emborcado, bêbado.
sombras que só o amor desorienta.
Que aqui se encerre a morte,
sob a choça da noite aclarada,
desfeita a sorrapinos -
com seu volume branco e choco;
coçando olhos fuscos de fogo,
embrulha-se na luz corrente.
Além só as que nascem nos livros.
hoje sequer os nomes.
Que seja!
um pelo outro.
Todo homem deveria perder pelo menos um amor na vida,
tomar pelo menos um porre cego dum vinho bem ruim
e mijar trêbado na praia sob a luz de qualquer lua.
Nessa rua, suponho,
devam brotar milhares de eus
aos quais ainda
não consegui chamar pelo nome.
I
Ontem a noite, o chope coberto de estrelas!
E por entre pernas e sereias feias e desafinadas,
cordialmente - gentis até,
meu reino fêz-se em berços quentes.
Cantei desejos aos mais rudes,
aos mais sujos fiz meus números;
com dançarinos e alejões, formei céus no mármore em musgo.
A seiva maldita era a fera
e me carregava entre dentes.
E o chope!
Ah!
O chope amarelo, sol!
Todo o estio em meus áridos lábios afundados,
pra depois a lua
resvalar serene em minha urina.
Quêbado e genial!
Fodi aos montes as filosofias,
todas as artes direitas.
Odiei sinceramente os pequenos artistas!
Mas veio o trote divino!
A madrugada amarrou-se aos meus pés.
Embriagado mais uma vez,
agora sob o crepúsculo-antes-manhã...
É a manhã outra bebedeira!
- das mais altas,
Ela vem cambaleante, espirituosa,
minha embriaguez mais lúcida.
II
Intocável manhã de março
onde te encontro?
Em meu coração de noite em criptas
pesa a insustentável juventude!
Vejo em teus lábios
o colher miserável da paixão.
Esses teus lábios - longos rios,
o fino entardecer a ti entrega
todo tesouro do escuro céu.
Onde, uma à uma, vão cabular estrelas.
Não te vejo mais manhã de março.
Intocável!
Teu prazer em tudo cala.
Minha vida por teus ossos de dançar segredos,
Posso tocar-te a vida inteira
mas que eu não a tenha assim
por menos que um beijo.
III
Incompleto peso! - penso.
Irreal doçura,
incorrigível céu. - me diz a loucura.
Jamais em jardas tua pele!
Nunca mais teu beijo destrutivo -
a seiva precoce agora em caules velhos.
Incompletos!
Irreais!
E a beleza avara...
aldrava muda dos sonhos.
Vai o peito neles, de porta em porta,
recolher perdões, inventar os números.
Nenhuma palavra pesa menos,
nenhuma mais.
Senão em sentimentos - aprisionadas.
Aos corações desumanos, ferrolhos cegos,
estes com olhos ferozes de máquinas sem lua.
E a noite me acelera
é toda ela uma morte inteira,
para alguma vida humilde e leve.
Ninguém mais como eu, incompletamente.
Penso,
e a doçura desfeita. Que loucura!
O céu esmigalhado...
Migalhas fortuitas de uma grande aurora.
Em nenhum peito bate o mesmo coração.
disperso
o caos
nos alimenta
deus sem nome.
(poema para Manuel de Barros, ou manual de barros)
Rescinde a ferrugem da manhã,
no café, sem tétano.
Como dela sem mascar seu vulto.
Sirvo dela pra fazer a cama, lavar os olhos.
O poeta me sopra aqui nos dedos tortos, uma rosa estoura lá fora.
Bem sabe ele como inventar nela a luz flácida.
A manhã então... sabe criar o verde!
Nesse assobio calmo, desce à tumba suave - levanta os ossos do enfeitiçamento:
- Toda manhã cresce assim, água fria no balde.
(título por Carole Ferreira)
¶ Eu
Meu perfil é desacordo.
Nada que eu discorde,
mas não acordo.
É que eu não sei mentir pra ele,
- por isso fico aqui, sozinho -
senão já tinha inventado outro.
Pareceu assustada, mas sem perceber o limite, passou a gostar. Falar palavrões! Que coisa boba... - pensava. Afinal, ele tinha o hábito. Mas não ali, rendidos contra a escuridão, de joelhos, amarrados um no outro. Sempre o viu praguejar no mercado, arregalando os olhos com os preços, com a fila, o estacionamento, o carro veloz cortando pela direita... - Filho da puta! Foi um grande susto, tanto que seus comportados olhos escuros, explodiram iluminando a sala. Sob essas sombras, no sofá, arqueados - ambos ganhavam terreno, conhecendo outros dentro deles, antes jamais percorridos. E a cada palavra mágica, o prazer reacendia; um prazer entalado, escondido, esquecido entre datas e pagamentos em mais de seis anos de um relacionamento formal e previsível - Vagabunda! Safada! Puta! - Num golpe rápido, seus cabelos ralos entre os dedos dele. A dor, fino laço invisível, comprimia-os suave. Seus dentes também o mordiam, escorregavam no suor dos ombros, separavam a fala. Ela sorria agora, com uma cara engraçada de susto... seus olhos incisivos varavam a rua, acesos e prontos. Ela experimentava, e dizia sussurrando... Da janela do pequeno apartamento, sentia-se que o bairro inteiro respirava essa luz fosca, rastejando de janela em janela. Um lindo cinema de sombras vidrava às paredes, ritmado pelos carros que iam lá embaixo, carregando seus faróis, iluminando e escurecendo, escorregando-os como sinos de cera, tornando reais os fantasmas das crianças. A cortina escondia um fim de noite morno, e via-se um vento volumar o tecido branco rendado, tão inocente. Agora, toda a casa dizia junto, cada objeto tinha seu próprio jeito de expressar. O sofá também xingava, o carpete, a ventoinha entupida de poeira, a luz da cozinha acesa - branca e morta, a tv desligada: - Foda-se! E a rua inteira berrava, o bairro berrava: - Foda-se! E eles se fodiam, dessa vez como estranhos e com toda a força do mundo!
Primeiro você acende a luz, depois apaga.
Depois repete todos os dias.
Um dia apagará a luz apagada.
Acenderá a acesa.
Não se percebe, se está cego antes de perder a visão.
E quando assim, pouca coisa sobrevive.
Interessante é perder o controle.
Estar sempre despreparado...
Mesmo fechando os olhos, nenhum sujeito apaga as estrelas.
¶ Algo
que há algum delírio há,
mesmo o delírio cogitado, agendado
como alguma coisa há nessa coisa toda inserida no vão
coisa essa de haver algo escondido, delirante - talvez
existindo em coisa alguma, além dessa
e além disso tudo
ou habitando, quer queira, quer não
contudo a vida abarca
mesmo assombrada e de relance
o sim, o não e o nada
"Tudo, embora não possa.
Nada, embora pareça.
Pode ser falta de sal,
e um pouco de sol na cabeça."
¶ Up
Ele pode estar morto
Seguiriam estrada a dentro, conhecendo-se superficialmente.
Num raro momento de silêncio, se sentiriam sós.
Na mochila do nosso rapaz, uma arma com cinco balas douradas e antigas,
destinadas a quem já não valia a pena.
Agora, reconhecido o terreno, dois bons motivos para pensar em usá-las.
Quer saber?!
Porra nenhuma...
Quando à tarde,
tinha o mar outro volume.
A estreita faixa de areia desaparecia.
E nossos magros corpos,
enluarados de sol,
envoltos num escama úmida
refletiam perpendiculares o fim de dia.
Ora negros, ora dourados,
perpetuavámos-nos entre imagens lúcidas e irreais.
O vento rasgava a pele, trazia a noite;
a maré subia, levava nossas pernas e pés.
Juntos à corda amarrada à imensa amendoeira,
saltávamos como tarzans sobre o pique curto de pequenos espinhos prateatos.
O mar juncava em doces pirâmides salgadas.
Nossos mergulhos rasos, e desaparecíamos.
Por completo, a praia também.
E a memória com ela.
Esse,
dentre tantos,
meu declive;
onde permaneço grande.
Sol de Taverna - assim explodo!
Manhã levada, entre o mijo e o cobre,
à tarde no esgoto - nau, rumo fútil.
Desobedeço quem seja!
Sujo de estrelas...
Volto em minha sede,
pobre raiz sem gosto.
Numa dose rasa, um bom veneno,
dá-me então o amargo da tua cara
e essa pintura feia, sem rosto.
Tenho o lado imemorial dos mortos.
Se não estão aqui, não os sei.
Meu pai circunda o grau 9 desse tremor.
Os melhores amigos afundam no 7.
O estranho é reconhecer nesses vazios
tudo o que eu não soube preencher.
puro desvão de rua,
parede descalça,
pés de muro,
a mudez da curva,
salto na grama,
o palrar do vento nas maçãs do corpo,
a ingratidão da chuva,
o verão limpando o fogo,
o caminhão de lixo fantasma,
a lâmina na corda,
o vizinho de cima embaixo da porta,
a boca dos móveis,
o olhar dos padres
dos automóveis,
dentes cariados,
faróis dobrando a esquina,
contratos que se calam,
as pequenas linhas inimigas do tarô,
trópicos lidos,
os psicotrópicos da vulva celeste,
histórias coloridas,
frutas sobre a mesa, o gurufim,
flamenguistas como eu,
arrivistas e afiliados de pele branca e mãos de ferro,
feirantes e contribuintes de um longo país devorado por mosquitos de proveta,
palavras com patas de gesso,
pano nas orelhas e o sangue do poeta,
crianças e mais crianças gritando acentos circunflexos,
a vírgula distorcida, o trema quieto e morto
seus filhos, os meus,
os netos e as tias que jamais comeram tóxico,
o fumo conversando asneiras,
o quarto devorado à língua,
seda comendo bicho,
nariz e navio numa só fileira
da boca, do pulo, da fresta que vomita cús
do sol cheirando estrume
cogumelo saltando bosta
manhã virgem e teu gole
teu gole mais teu
seguros numa apagada rua de outra cidade
assassinos com chapéus de harpa
o anjo condenado ao trem de mariposas
Deus numa loja de conveniência riscando fósforos úmidos
uma estrela morta,
os adesivos de aviso sonoro, o avião enterrado às pressas
uma explosão de coisas aceleradas e vazias
a incompreensão da mosca
o indivisível pesar de uma caixa de sapatos
só uma das mãos pode cavar
a outra aguarda o fruto.
Pequenos são os lírios
P. reparou no amigo, mudança luminosa: uma longa e desleixada cachoeira de cabelos dourados, que desciam até os ombros, dum ouro escuro. Fios leves e longos. Logo o vento ali dançava, escondendo-se. Aquele amarelo borrado, marcado pelo ressecamento natural da viagem salgada, terminava numa testa curta que lhe servia de margem. Abaixo, dois pequenos enfeites, confeitos azuis sob as sobrancelhas. Os velhos olhos ciscados, cílios quase transparentes - ainda como antes. A boca sempre aberta, recitando pecados; a mesma boca de vinte anos atrás. Percebeu o olhar sorridente do amigo. Sua consternação diante daquela beleza súbita pairava entre eles. Mais que duas décadas, os separavam também, uma geleira pronta para a combustão que se formava desse pequeno espanto quente. P. tomou a palavra e o abraçou fraternalmente, como se pudesse ser fraterno e paternal àquele instante. Guardando distância de seu quadril. Mas V. recebeu aquele abraço comedido e o envolveu numa ingenuidade adolescente, o erguendo em gesto bruto. Assustado, P. não fez mais que rir e responder o carinho. Estavam ali, sob o som de barcos que atracavam e partiam; de vendedores de peixe carregando suas caixas úmidas; de ruidosos abraços marinhos distantes, adeuses sem fim. A seara negra terminava. A guerra os separou ainda jovens. Dois destinos prontos para vidas grandes. Dois sonhadores. Obrigados a defender o que não havia defesa. E o que não os importava, até então. Quando muito, aventura de meninos criados com armas e homens armados. Um país que nutria sede por sangue e dominação alheia. Mas cresceram livres no campo, livres dentro de cercas e animais pra cuidar. Um telegrama os fez novamente juntos. A guerra esfriara e debandara seus cães. As famílias recompuseram-se. Homens despedaçados. Crianças sem pais, apenas fotos amarelecidas e amargas. Amigos, amantes, inimigos, vizinhos. A cidade parecia receber honrosamente seus fantasmas.
(continua)
- Foge meu querido!
com olhos verdes entreabertos, e uma linguinha pra fora da boca;
Em gestos lentos, consigo ver a agilidade ancestral
de pumas brilhantes sob grandes árvores cobertas por uma lua que já não existe.
gosto de ser o pai estranho, que aos poucos aprendeu amar e decifrar.
Enquanto escrevo, vou sentindo aos poucos minha alma inteira ronronar.
Procuro em você minha falta.
Meu engano mais célebre.
Faltaram-me anos nessa vida.
Sem peças
o navio não completou-se.
A tez da infância perdi.
De certo aquele muro atrás da casa,
nem mesmo o sol venceu;
tragados duma vez,
numa tarde triste.
A pequena escola.
A velha caixa de sapatos sobre o armário.
O café.
A janela sobre a cama.
Tudo ali não há mais.
Se houve, não sei.
Não fui esperto o bastante pra guardar.
No topo da cabeça, trigais de uma prata fina,
repartidos num fio de terra moreno.
Duas tranças ladeavam seu rosto índio.
Tua falta completou o jogo.
Ali onde as peças desaparecem,
surgem dedos enrugados.
Um peteleco gentil
põe o navio na água.
(Lembranças de Ercília)
"Escavações ao silêncio"
Não basta emudecer, ou trancar-se em si.
Continue a fala, abra caixas, anote vôos.
Onde menos reconheces como tal, escondeu-se.
Aí, nesse fundo falso de alguns sonhos inevitáveis,
ilumina-se a face risonha desse menino sem olhos.
"A poesia e o bulling"
Quando eu era mais novo,
tinha um par de asas na cabeça
onde hoje, disfarçadamente,
lembram duas orelhas.
Voltava todos os dias da escola sobrevoando o bairro.
Alguns amiguinhos insistiam em confundi-las;
mas eu explicava que as asas estavam longe de parecer telefones públicos,
diferente do que berravam pelos corredores.
Na verdade, poderiam até ser conchas, isso eu aceitava que fossem.
Pois essas duas conchas sempre me carregavam pro mar, onde quer que ele estivesse.
E no fundo eu até sabia...
Sabia que não era um menino comum preso à duas orelhas,
mas duas orelhas incomuns presas num menino.
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
Ando preguiçoso.
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
Há um nascer de sol morto
repuxando a moita serena da madrugada.
Um nascer de sol pálido, sem ar
que desce polido, recuperando o cheiro ácido das vielas
onde dormem restos de homens, onde os homens largam seus restos.
Um nascer de sol morto, como os mortos no barranco do morro
cobertos pelo lixo da enchente, gente com cara de lixo,
lixo cobrindo riso, risco, dente.
Um nascer torto, dum sol coito, curto, foco opaco.
Um nascer que só nasce pros outros.
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
A lua é a luz que me parece perpendicular,
debruçada sobre o vasto arrastão do céu.
Varando só qualquer estrada, como se tomasse-me pelas mãos
o raro vício de ser vento.
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
Quero migrar com os pássaros,
dentro do homem que recebe o chão pra voar.
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB
Empresto ao mundo esse olhar magnífico que invento.
E esse pensamento de gira-mundo acolhido entre duas pernas moles de homem.
Não recebo das estrelas pagamento algum pelo trabalho oferecido,
gosto mesmo é de saber que estão ali apenas, sem qualquer ofício sugerido.
Assim como vejo o movimento da vida, aplacado de tanto sentir,
derrubado de tanto ver o quanto ainda pode ser refeito.
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBB




